O ciclo vicioso do prejuízo a pasto

“Choveu menos esses últimos anos”
“A cultivar da forrageira que plantei não é boa”
“Uma infestação de ‘plantas invasoras’ e pragas destruiu as pastagens da região”…

Quem nunca ouviu ou até mesmo falou umas destas frases como justificativa para aqueles hectares de pasto que em poucos anos desapareceram, deixando só poeira no seu lugar?


Pois é, você não é o único. Essas e outras justificativas são ditas e repetidas diariamente por produtores do país inteiro, e inclusive por alguns profissionais.

O que realmente ocorre e que poucos se atrevem a admitir é: Estamos manejo nossos pastos de forma errada. Só isso!

Como ocorre o “manejo” das pastagens na natureza?

Para entendermos melhor onde estamos errando, visualize como acontece o “manejo natural” das pastagens pelos animais não domesticados, como por exemplo, os rebanhos de gnús no Quênia (África):

Os animais percorrem centenas de quilômetros indo do sul para o norte e do norte para o sul do Quênia todos os anos, sempre seguindo as chuvas para ter alimento suficiente para sobreviver e reproduzir.
Por onde passam estes animais deixam sempre duas coisas: Suas pegadas e seus dejetos (esterco e urina).

Rebanhos de gnús e zebras migrando em busca de pasto novo na África. Imagem: Matt e Will Burrard-Lucas

Ao mesmo tempo, as plantas forrageiras que estão no caminho destes animais tem sempre o mesmo ciclo: brotam, crescem com as chuvas, são pastejadas pelos animais, e depois utilizam os dejetos deixados para rebrotar novamente após a saída dos animais.

Resumindo, o que acontece: A forrageira cresce e acumula reservas nas raízes, o rebanho chega e se alimenta, deixa o adubo e vai embora, então a forrageira cresce novamente e acumula reservas nas raízes, e outro ciclo se repete…… por milhares de anos isto acontece sem nenhuma degradação dos pastos e do solo.

E como ocorre o manejo das pastagens na maior parte das fazendas do Brasil?

Nas fazendas Brasileiras, em sua grande maioria, o manejo das pastagens se dá extensivamente, ou seja, os animais são colocados em grandes áreas de pastos cercados e permanecem ali por dias, semanas ou até meses, até que o gado tenha colhido toda massa disponível, então é levado para outro pasto, e assim se repete.

Na média o que tenho visto, é um lote de gado ficar por pelo menos 1 a 2 meses em cada de pasto, que variam de tamanho, entre 20 e 300 hectares cada, dependendo da fazenda.

Nesse caso, o que ocorre com o animal e a planta forrageira é o seguinte:

O animal ao entrar na área e come primeiro as partes mais moles das plantas – as folhas da parte superior – depois disso, numa segunda passagem pela mesma planta uns 2 a 3 dias depois, o animal come as folhas mais abaixo, alguns talos e algumas folhas novas que começaram a surgir.

Na terceira passagem do animal por aquela mesma planta, após uns 7 a 10 dias depois de ter entrado área, o animal já encontra ali rebrotes mais destacados da planta, naturalmente ele começa a preferir se alimentar destas brotações e deixa os talos e restos de folhas velhas para trás, e isso se repete na quarta e na quinta vez que o animal passar por cada planta do pasto.

Após 1ou mais meses dentro do mesmo pasto, o animal cortou todas as brotações que a planta conseguiu lançar com as reservas orgânicas acumuladas em suas raízes, e só então é feita a retirada do gado para entrar em uma nova área.

lote comendo o rebrote do pasto após 40 dias dentro de um pasto na estação das águas. Foto: Fabrício Tillmann

O que resta em um pasto após tanto tempo de ocupação são os talos de plantas que esgotaram toda energia reservada nas raízes, emitindo as brotações para se recuperar, e uma atrás da outra, estas brotações foram arrancadas pelo animal antes de crescerem o suficiente para fazer fotossíntese e devolver as reservas às suas raízes.

Nesse período em que o gado está em outras áreas, (que geralmente leva 2 a 3 meses) a planta precisa aos poucos, criar pequenas brotações, armazenar pequenas reservas e lentamente recuperar parte das reservas para crescer novamente. Isso significa que quando o gado chegar novamente, o pasto já não terá a mesma quantidade de massa que tinha na última passagem, desta forma, o gado irá consumir mais a fundo a massa disponível e as brotações que surgirem no próximo pastejo.

Resumo: A cada entrada do gado na área, o pasto está mais fraco, e o gado mais faminto, produzindo menos.

Com o tempo, como as plantas forrageiras não conseguem rebrotar e recobrir o solo rapidamente, este permanece mais tempo exposto ao sol, permitindo que as sementes de inços comecem a germinar, e aproveitam para crescer, já que os animais não costumam comê-las.
Algumas dessas plantas possuem em suas raízes a capacidade de produzir fitotoxinas que inibem o crescimento das raízes de plantas de outras espécies, inclusive das nossas forrageiras, o conhecido efeito alelopático.

Pasto degradado e infestado por inços causadores de efeito alelopático sobre as forrageiras. Foto: Fabrício Tillmann

Ao, ver o inços crescerem e o pasto ficar cada vez mais debilitado, o que o precuarista faz, geralmente sob recomendação do técnico ou representante comercial que lhe acompanha? Aplica herbicida! Aí está um grande problema que nunca visualizamos no campo:

Apesar dos inços morrerem com o herbicida, as plantas forrageiras, por mais tolerantes que sejam, também sofre efeitos colaterais do herbicida, o que faz com que cresçam ainda mais debilitadas.

Este efeito do herbicida é provado em muitos estudos científicos como o exemplo do gráfico abaixo. Alguns consultores (geralmente comissionados pela indicação ou venda) costumam recomendar aplicação de nitrogênio para “amenizar” o efeito do herbicida. Além de triplicar o custo, é um erro!

Efeito fitotóxico do herbicida sobre a produtividade de pastos tropicais. Não publicado.

Outras medidas paliativas vão sendo tomadas ao longo dos anos de vida daquela pasto, cada vez a medida é um pouco mais desesperada:

– Diminuir o lote de animais;
– Diminuir o tempo de ocupação dos pastos (e consequentemente o descanso);
– Aplicar adubos e corretivos caros, já na última esperança de recuperar o pasto, e por fim;
– Sem sucesso, acaba tendo que reformar o pasto, investindo horas de trator, e rios de dinheiro com corretivos, adubo e sementes, tudo para começar um novo ciclo de erros.

Ciclo vicioso do prejuízo a pasto

Mas tenho pastos menores (de 5 a 20 hectares) e o gado fica no máximo 15 dias lá, por que minhas pastagens também degradam em poucos anos?

Pelo mesmo motivo: O gado fica tempo suficiente para comer os rebrotes das plantas forrageiras!
Depois de 3 dias que o animal cortou a planta com o dente, ela naturalmente começa a rebrotar, independente da presença ou não do animal. Não importa se seu pasto é “Piqueteado” e “rotacionado”, se o gado fica no pasto por muito tempo em um piquete, e não tem um tempo de descanso adequando, seu manejo continua sendo extensivo, ou seja, em um “extensivo rotacionado”!

Pasto manejado racionalmente, à esquerda um piquete que o gado acabou de entrar, e à direita o piquete que acabou de sair.

Mas então o que fazer para não desperdiçar pasto e nem deixar que ele se degrade?
Simples: Maneje racionalmente os seus pastos, regulando a lotação ou dividindo os piquetes em áreas suficientes para que o gado colha toda massa de forragem disponível em um tempo curto, deixando ali suas fezes e urina para adubar, e em um número de piquetes e lotes de animais que permitam cada piquete descansar tempo mínimo necessário para crescer com as reservas anteriores, fazer fotossíntese e guardar novas reservas para o próximo ciclo. Isso, para cada estação do ano.

Além do pasto durar para sempre, e o solo melhorar ano após ano produzindo cada vez mais, a planta vai estar sempre no seu melhor ponto de qualidade, ou seja, os animais também irão produzir mais!

E os inços? Bom, se a planta forrageira cresce rapidamente cobrrindo o solo, os inços não têm tempo para germinarem, pois eles são muito mais lentos que a planta forrageira quando o animal não está comendo os rebrotes dela, além disso, utilizando corretamente altas cargas instantâneas, os animais acabam comendo e eliminando os inços.

Você acha que o investimento pra dividir uma área em vários piquetes e ter um acompanhamento profissional para fazer isso é caro?

Calcule quanto custa para reformar pastos que irão durar só alguns anos, gastando sempre com herbicidas, adubo e outros paliativos, e produzindo cada ano menos.

Depois, pegue esse mesmo valor e divida por tempo indeterminado que uma pastagem manejada racionalmente dura, produzindo em quantidade e qualidade pro resto da sua vida.

Se você quer fazer manejo profissional de pastagens e tornar sua pecuária verdadeiramente lucrativa, entre em contato com quem defende os teus interesses e pode te guiar para o sucesso da tua atividade pecuária.

Ou você prefere continuar colocando a culpa da morte dos teus pastos na seca e na espécie da forrageira?

Você também pode gostar…

As 4 Leis do Pastoreio Racional

As 4 Leis do Pastoreio Racional

André Sorio, Eng. Agrônomo, M.Sc. O Pastoreio Racional foi concebido e descrito por André Voisin - bioquímico e...

Sistemas de Pastoreio

Sistemas de Pastoreio

Se uma propriedade quiser manter e alimentar grande quantidade de animais é necessário que consiga obter alta produção...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Abrir Whatsapp
Precisa de consultoria?
Clique abaixo e marque uma reunião com a gente.